quarta-feira, 15 de abril de 2026

Diário de uma doutoranda - Aprender é adaptar ou transformar o Mundo?

 Fala, aventureiros da pesquisa!


Hoje o dia começou daquele jeito por aqui: café forte na xícara, o Apolo já exigindo sua caminhada matinal, e a mente fervilhando após as leituras da nossa disciplina. Sabe aquele momento em que a teoria te dá uma rasteira e exige uma reconfiguração de tudo o que você achava que sabia sobre educação? Foi exatamente o que aconteceu ao mergulhar nos textos do estudo Dirigido. 

A primeira provocação do estudo dirigido era observar como Vieira Pinto desmonta a ideia da tecnologia neutra e universal. Ele nos alerta que a tecnologia é, antes de tudo, a síntese de relações sociais concretas; ela carrega a intencionalidade e o projeto histórico de quem a produziu.

Para pesquisadores de países periféricos, isso é um "soco no estômago". Quando recebem pacotes tecnológicos "fechados" e os utilizam de forma acrítica, correm o risco da "domesticação do futuro", reproduzindo uma consciência ingênua e estruturas de dominação. A consciência crítica só desperta quando compreendemos que a técnica é trabalho humano acumulado. A tecnologia não possui vida própria; ela é o prolongamento material do trabalhador.

Aí veio o pulo do gato da atividade: tensionar essa base materialista com Pierre Lévy. Onde eles convergem? Ambos rejeitam a técnica neutra. Lévy argumenta de forma brilhante que os artefatos criam uma "ecologia cognitiva", reorganizando profundamente como pensamos e como formamos coletivos pensantes.

Mas a divergência que encontrei para o meu texto é clara. Enquanto Lévy traz um tom mais entusiasmado sobre a fluidez da informação e as potencialidades emancipatórias do ciberespaço, Vieira Pinto me puxou pela gola de volta para a realidade bruta. Ele foca no chão material: dominar a técnica é uma questão de soberania contra a exploração. Para Vieira Pinto, não basta estarmos imersos na ecologia cognitiva (como diria Lévy); é preciso saber a serviço de qual projeto de sociedade e de classe essa conexão opera.

Para encaminhar a conclusão do meu texto, mergulhei no Capítulo XIV (a partir da p. 601), focado na aprendizagem. Aqui, Vieira Pinto ataca frontalmente a definição cibernética e behaviorista de que aprender é "melhorar a adaptação" ao meio.

Para ele, aceitar essa tese é um erro terrível, pois educar para adaptar-se é educar para manter o status quo, é exigir do aprendiz uma acomodação silenciosa. A verdadeira aprendizagem é um ato revolucionário e mediado pelo trabalho: "aprendizagem não significa (...) melhor adaptação ao meio mas, ao contrário, invenção de novas condições de existência... Não se adapta, adapta o mundo a si."

Ele aproveita para destruir a ilusão do "autômato aprendiz". Nossos computadores e artefatos operam por ligações elétricas, processam dados, mas não "aprendem" no sentido existencial. O salto qualitativo da aprendizagem humana reside na produção social. O artefato não transforma a própria existência para se humanizar; quem toma consciência e se transforma ativamente pelo trabalho somos nós.

E a minha tese com isso?

Quando pesquisamos Educação Híbrida ou os Núcleos de inovação, o objetivo jamais pode ser usar o digital apenas para engajar e fazer o aluno "se adaptar" mais rápido ao mercado. Se a aprendizagem é transformar a relação com o mundo, os artefatos que investigamos precisam ser meios para a leitura autoral e intervenção crítica. Como sentenciou Vieira Pinto: a aprendizagem consiste em "adaptar-se para mudar e não para conservar". Não somos meros usuários ou autômatos; somos produtores históricos do nosso próprio futuro.

2 comentários:

  1. Olá Débora. E o conceito de aprendizagem de Vieira Pinto, o que me diz sobre? E de que forma e em que medida o estudo dirigido auxiliou (ou não) em suas leituras e aprendizagens?

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  2. Olá, professor Fernando! Agradeço pelas provocações no estudo dirigido, pois esse exercício de leitura me atravessou profundamente. Confesso que refletir sobre a definição de Vieira Pinto, redefiniu as minhas perspectivas. A forma como ele constrói o conceito de aprender simplesmente me desmontou.
    ​Até então, é muito fácil cairmos na armadilha de que aprender é "melhorar a adaptação" ao meio. Mas mergulhar no texto me fez enxergar que o real conceito de aprendizagem dele rompe com tudo isso: o processo não é sobre saber se adaptar aos conteúdos ou aos novos artefatos digitais, mas sim sobre transformação. Como ele mesmo pontua, é a invenção de novas condições de existência; não é adaptar-se, é adaptar o mundo a si.
    ​Essa ruptura me auxiliou imensamente e influenciou diretamente o eixo da minha tese sobre formação de professores para a educação híbrida. Quando analiso as formações que os professores recebem para atuar nesse campo, fica claro que não podemos oferecer um mero treinamento adaptativo. A formação docente precisa ser um espaço onde o professor não apenas se ajusta ao "uso" tecnológico, mas aprende a transformar as suas próprias práticas de ensino, incorporando esses artefatos para romper com modelos instrucionistas e recriar o seu fazer pedagógico.
    Foi uma leitura desafiadora, mas que amadureceu muito o meu olhar para a pesquisa e para a construção do artigo e da pesquisa!

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