Fala, aventureiros da pesquisa!
Hoje o dia começou daquele jeito por aqui: café forte na xícara, o Apolo já exigindo sua caminhada matinal, e a mente fervilhando após as leituras da nossa disciplina. Sabe aquele momento em que a teoria te dá uma rasteira e exige uma reconfiguração de tudo o que você achava que sabia sobre educação? Foi exatamente o que aconteceu ao mergulhar nos textos do estudo Dirigido.
A primeira provocação do estudo dirigido era observar como Vieira Pinto desmonta a ideia da tecnologia neutra e universal. Ele nos alerta que a tecnologia é, antes de tudo, a síntese de relações sociais concretas; ela carrega a intencionalidade e o projeto histórico de quem a produziu.
Para pesquisadores de países periféricos, isso é um "soco no estômago". Quando recebem pacotes tecnológicos "fechados" e os utilizam de forma acrítica, correm o risco da "domesticação do futuro", reproduzindo uma consciência ingênua e estruturas de dominação. A consciência crítica só desperta quando compreendemos que a técnica é trabalho humano acumulado. A tecnologia não possui vida própria; ela é o prolongamento material do trabalhador.
Aí veio o pulo do gato da atividade: tensionar essa base materialista com Pierre Lévy. Onde eles convergem? Ambos rejeitam a técnica neutra. Lévy argumenta de forma brilhante que os artefatos criam uma "ecologia cognitiva", reorganizando profundamente como pensamos e como formamos coletivos pensantes.
Mas a divergência que encontrei para o meu texto é clara. Enquanto Lévy traz um tom mais entusiasmado sobre a fluidez da informação e as potencialidades emancipatórias do ciberespaço, Vieira Pinto me puxou pela gola de volta para a realidade bruta. Ele foca no chão material: dominar a técnica é uma questão de soberania contra a exploração. Para Vieira Pinto, não basta estarmos imersos na ecologia cognitiva (como diria Lévy); é preciso saber a serviço de qual projeto de sociedade e de classe essa conexão opera.
Para encaminhar a conclusão do meu texto, mergulhei no Capítulo XIV (a partir da p. 601), focado na aprendizagem. Aqui, Vieira Pinto ataca frontalmente a definição cibernética e behaviorista de que aprender é "melhorar a adaptação" ao meio.
Para ele, aceitar essa tese é um erro terrível, pois educar para adaptar-se é educar para manter o status quo, é exigir do aprendiz uma acomodação silenciosa. A verdadeira aprendizagem é um ato revolucionário e mediado pelo trabalho: "aprendizagem não significa (...) melhor adaptação ao meio mas, ao contrário, invenção de novas condições de existência... Não se adapta, adapta o mundo a si."
Ele aproveita para destruir a ilusão do "autômato aprendiz". Nossos computadores e artefatos operam por ligações elétricas, processam dados, mas não "aprendem" no sentido existencial. O salto qualitativo da aprendizagem humana reside na produção social. O artefato não transforma a própria existência para se humanizar; quem toma consciência e se transforma ativamente pelo trabalho somos nós.
E a minha tese com isso?
Quando pesquisamos Educação Híbrida ou os Núcleos de inovação, o objetivo jamais pode ser usar o digital apenas para engajar e fazer o aluno "se adaptar" mais rápido ao mercado. Se a aprendizagem é transformar a relação com o mundo, os artefatos que investigamos precisam ser meios para a leitura autoral e intervenção crítica. Como sentenciou Vieira Pinto: a aprendizagem consiste em "adaptar-se para mudar e não para conservar". Não somos meros usuários ou autômatos; somos produtores históricos do nosso próprio futuro.
