sexta-feira, 27 de março de 2026

Diário de uma doutoranda aventureira: explorando as potencialidades do Diagrama de Ishikawa para problematizar o uso instrumental das TD

 Olá, aventureiros!

Hoje vamos colocar o dedo na ferida de um problema muito comum nas nossas universidades: a implementação puramente instrumental das tecnologias digitais. Sabe aquela sensação de que a instituição comprou plataformas caríssimas, cheias de botões e gamificação, mas, no fundo, a sala de aula continua exatamente a mesma? Pois é. Não existe feitiço de transfiguração que mude a essência de uma prática pedagógica se a nossa mentalidade continuar presa ao século passado.

Para organizar essa reflexão, estruturei um Diagrama de Ishikawa (a famosa espinha de peixe) fundamentado nas teorias que fundamentam as tecnologias digitais no ensino. Vamos destrinchar as 6 causas que sustentam essa falsa inovação:



1. Docentes:

  • A armadilha do transmissor: Em vez de atuar como animadores da inteligência coletiva (Lévy), muitos docentes reproduzem a lógica da mídia de massa ("um-todos") no ambiente virtual. A aula expositiva apenas mudou de palco, mas o monólogo continua.
  • Lente Behaviorista: A tecnologia é adotada para automatizar a entrega de informação. A prática instrucionista é mascarada, ignorando o potencial da rede para a co-construção de saberes.

2. Estudantes: 

  • Fazer sem compreender: O aluno é condicionado a realizar tarefas mecânicas clicar, baixar, responder formulários  para obter um sucesso prematuro na plataforma, mas não reflete sobre os conceitos. O "saber fazer" não garante a compreensão profunda do processo cognitivo.
  • Isolamento Cognitivo: A comunicação ocorre apenas no nível da interatividade homem-máquina (interação reativa). Faltam as interações mútuas com os pares, que são as que realmente afetam reciprocamente os sujeitos e geram aprendizado.

3. Currículos e Metodologias: 

  • Linearidade limitante: Ignorando a fluidez do Conectivismo (Siemens), o currículo segue estruturado em pacotes estanques. É incapaz de formar ecologias de aprendizagem onde o estudante precisa conectar nós de conhecimento diversificados.
  • Mensagem Fechada: O material não é tratado como uma "obra aberta" (Pimentel & Carvalho). Faltam a curadoria colaborativa e o espaço para a autoria, prevalecendo os PDFs pré-fabricados e imutáveis.

4. Tecnologias e Infraestrutura: A caverna digital

  • O AVA como depósito: As plataformas sofrem com a cultura do confinamento e viram apenas repositórios glorificados de arquivos, subutilizando as diversas ambiências computacionais disponíveis na cibercultura.
  • Design Reativo: A infraestrutura valoriza o condicionamento do usuário com a interface gráfica (cliques, feedbacks automáticos), mas falha em prover arquiteturas que sustentem a troca dialógica e a verdadeira colaboração.

5. Gestão e Cultura: O Fordismo Educacional

  • Produção em Massa: A gestão tenta adotar a tecnologia baseada no paradigma do "empurrar" informação (produção em massa), desperdiçando o potencial humano. O ideal seria uma migração para um modelo educacional mais flexível e "enxuto", moldado pelas necessidades de quem aprende.
  • O Monopólio da Validação: Há uma resistência institucional brutal em reconhecer e validar as redes de saberes informais criadas pela inteligência coletiva, mantendo a validação presa exclusivamente aos moldes burocráticos.

6. Avaliação: 

  • Predominância de verificações somativas e testes automatizados : A avaliação atua como um rígido "controle de qualidade" focado na memorização behaviorista (DAKICH, 2014). Mede-se apenas o "fazer com sucesso" em exames padronizados, em vez de avaliar a verdadeira "compreensão" processual e crítica do estudante (Valente, 1999).  
  • Incompatibilidade entre mensuração linear e a aprendizagem complexa ("caótica"): Tenta-se medir a aprendizagem com métricas cartesianas de rotas únicas, ignorando que, sob a ótica do Conectivismo (Siemens, 2005) e da Teoria do Caos, o conhecimento contemporâneo emerge em redes dinâmicas, não lineares e imprevisíveis, exigindo a habilidade de auto-organização.


Bibliografia:

KOEHLER, M. J.; MISHRA, P.; CAIN, W. What is Technological Pedagogical Content Knowledge (TPACK)? Journal of Education, 2013. Disponível em: https://www.matt-koehler.com/publications/Koehler_et_al_2013.pdf.

SIEMENS, G. Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age. International Journal of Instructional Technology and Distance Learning, 2005. Disponível em: https://auspace.athabascau.ca/bitstream/handle/2149/2867/Connectivism%20-%20Connecting%20with%20George%20Siemens.pdf.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. (Capítulos 4 e 6).

PIMENTEL, Fernando Silvio Cavalcante. Uma visão múltipla da interação em direção à tutoria. In: ______. Interação on-line: um desafio da tutoria. Maceió: Edufal, 2013. cap. 1, p. 23-49.

PIMENTEL, Mariano; CARVALHO, Felipe da Silva Ponte. Princípios da Educação Online: para sua aula não ficar massiva nem maçante! SBC Horizontes, 23 maio 2020. Disponível em: https://horizontes.sbc.org.br/index.php/2020/05/principios-educacao-online/.

LAURILLARD, D. Rethinking University Teaching: A Conversational Framework. Routledge, 2002. Disponível em: https://www.scribd.com/document/704783876/Conversational-Framework-of-Laurillard.

PUENTEDURA, R. SAMR: A Brief Introduction. 2010. Disponível em: https://www.scribd.com/document/891040863/Samr-Model-1.

DAKICH, Eva. Theoretical and Epistemological Foundations of Integrating Digital Technologies in Education. In: Reflections on the History of Computers in Education. Springer, 2014. Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-642-55119-2_10.

VALENTE, José Armando. Mudanças na sociedade, mudanças na educação: o fazer e o compreender. In: O computador na sociedade do conhecimento. Campinas, SP: UNICAMP/NIED, 1999.



terça-feira, 24 de março de 2026

Diário de uma doutoranda - caminhos e (des)caiminhos na sociedade da informação

 Olá, aventureiros!





Na aula de ontem (24/03/2026) da disciplina de Tecnologias Digitais no Ensino, do Doutorado em Ensino, ministrada pelo professor Fernando Pimentel, a dinâmica foi dividida em dois momentos. O primeiro consistiu na finalização do PBL sobre a informatização da sociedade e os novos paradigmas sociais na educação. Foi um momento de dialogarmos sobre nossas leituras e ponderações. Refletimos que há dois lados na dataficação da educação: se, por um lado, ela pode viabilizar uma maior eficiência nos processos educacionais, por outro, estabelece uma governança algorítmica de poder que tende a utilizar a informatização como mecanismo de controle e domínio, visando à lucratividade. Diante disso, destaco a necessidade de refletirmos sobre esses assuntos densos e complexos para analisarmos, em profundidade, as questões sociais, históricas e econômicas que permeiam as tecnologias na e para a  educação.

Na segunda parte da aula, iniciamos a discussão do PBL referente ao Problema 4: fundamentos teóricos das tecnologias digitais. O problema gira em torno da tentativa de implementar uma educação tecnológica e digital sem compreender de fato o que ela significa, quais teorias a englobam e qual perspectiva será adotada. Discutindo também a necessidade de diferenciar interação de interatividade, e de pensar em uma educação que vá além da visão instrumental. Para isso, é imprescindível compreender as raízes epistemológicas e teóricas que fundamentam essa concepção.

Para sintetizar as ideias, escolhemos utilizar o artefato Diagrama de Ishikawa. O objetivo é justamente encontrar as causas e subcausas do problema por meio de fatos e evidências, auxiliando os sujeitos a pensar, refletir e repensar as concepções que já conhecem e aquelas das quais precisam se apropriar melhor. Afinal, para defendermos nossa tese, é necessário argumentar com fatos e evidências, além de conhecer a ideia central em profundidade.




sábado, 21 de março de 2026

Diário de uma doutoranda aventureira - A Teia de Dados: Desafios e Oportunidades da Digitalização na Universidade


Olá, aventureiros!

Seja bem-vindo ao nosso espaço de debate sobre os rumos da educação na cultura digital. Imagine um campus universitário onde cada clique num fórum, cada minuto de leitura numa plataforma e cada avaliação não são apenas passos na jornada de aprendizagem, mas dados preciosos sendo coletados e analisados em tempo real por inteligência artificial. Até que ponto essa transformação é benéfica e onde começam os riscos?


Os Dois Lados da Moeda Digital

Este processo de "dataficação" e digitalização acelerada é complexo e, como discutimos em nossa última jornada investigativa, apresenta uma faceta dual.

Por um lado, trazem inovações como a gestão baseada em evidências, o combate ao abandono e uma aprendizagem mais flexível e ubíqua. Por outro lado, geram tensões profundas ao reduzir o ensino a métricas quantitativas, ameaçando a autonomia docente com a governação algorítmica e levantando graves questões de privacidade e vigilância dos estudantes. 

Para expandir essa análise crítica e detalhar as potencialidades e os riscos de render-se cegamente à lógica da eficiência mecânica na educação, convido-vos a ouvir o novo episódio do nosso podcast. É um debate indispensável para gestores, professores, alunos e todos os interessados no futuro da educação na sociedade da informação.

OUÇA O EPISÓDIO COMPLETO NO LINK ABAIXO:

https://open.spotify.com/episode/77HL9Ec9sgsgeddX8TZwZa?si=MmhrZWVTQEGiN1rYmY46OQ

terça-feira, 17 de março de 2026

Diário de uma doutoranda - Despir-se do Óbvio: A Arte de se Desconstruir para Florescer em Novos Paradigmas.

 


Olá, aventureiros!

À tarde (de ontem), o cenário mudou. Como doutoranda, a discussão do PBL sobre Inovação e a abertura do terceiro problema trouxeram reflexões densas. Finalizamos o segundo problema do PBL com uma provocação necessária: o que realmente é inovação? e quem decide quem inova? desconstruímos o conceito superficial de "novidade tecnológica" para entender as condições reais que permitem a inovação acontecer, alinhando as percepções de todos que estão envolvidos nesse processo. 

Iniciamos o terceiro problema focando na Sociedade da Informação. O debate girou em torno da plataformização e dataficação do ensino nas universidades, que nos permitiu "sair da caixinha" e nos tirar da zona de conforto. Essa imersão crítica nos impulsionou a buscar autores e evidências sólidas sobre a temática. Mais do que apenas cumprir uma etapa da disciplina, o encontro de plantou sementes para a construção de questionamentos: Como os algoritmos moldam o que entendemos por conhecimento? 


"Inovar não é acumular artefatos; é, antes de tudo, um exercício de coragem para se desconstruir. Na aula de ontem, deixamos pelo caminho as certezas engessadas sobre o 'novo' para, no vazio da dúvida, construir novos paradigmas. Escolhi o caminho da desconstrução."

Diário de uma doutoranda: Magia, narrativa e o desperta da BNCC computação e Educação Digital

 



Olá, aventureiros!


Ontem tivemos mais um encontro da disciplina Edutic e a sensação é de estar mediando uma aula de Transfiguração em Hogwarts! Meu papel como professora estagiária foi guiar os futuros pedagogos pelos mistérios das Competências Digitais da BNCC.

  • O Feitiço da Narrativa: Discutimos que a tecnologia sem uma história é como uma varinha sem núcleo. Reforçamos como a narrativa é o amálgama que dá sentido aos artefatos, transformando diretrizes em experiências encantadoras para os alunos.

  • Mergulho nas Competências: Discutimos como incorporar o Pensamento Computacional" em nossa prática pedagógica. O desafio foi mostrar que a magia acontece na mediação, e não apenas no dispositivo.

  • Diversidade de Casas:  Cada um trouxe sua própria "poção" de experiências, enriquecendo o debate sobre como diferentes perspectivas e práticas pedagógicas.

A experiência de hoje consolidou a percepção de que formar professores na cultura digital exige, antes de tudo, sensibilidade para entender que cada clique em sala de aula deve carregar uma intenção pedagógica clara e humanizada.


sexta-feira, 13 de março de 2026

"Diary of an Adventurous PhD Student: The Technological Illusion – What Does It Really Mean to Innovate in Education?"

 Hello, adventurers!

As a researcher and educator immersed in digital culture and the integration of technologies into education, I frequently grapple with a constant pressure in our field: the urgency to be "innovative." However, when we bring new artifacts into the classroom be they virtual environments, analog applications, or digital gamesn an inevitable question always arises: to what extent is the mere introduction of technology actually an educational innovation?

To reflect on this, we bring forward some of the most relevant perspectives from current literature on the subject.

1. The Trap of Instrumental Use: Technology vs. Pedagogical Change

It is quite common to fall into what Petter et al. (2025) term an "a priori positive bias": the blind belief that everything technologically new is pedagogically beneficial. Replacing a blackboard with an interactive screen is not innovating; it is merely a "cosmetic alteration."

As Pimentel (2023) aptly warns when investigating the incorporation of digital games, technology alone does not do the work. If a game is introduced solely for the mechanical repetition of content, the transmissive model remains intact. True innovation requires what Campos and Blikstein (2019) classify as "radical innovations," which disrupt the traditional model. For Kobayashi (2020), this signifies a profound shift in posture: innovation precedes the machine; it resides in the new attitude of both teacher and student toward knowledge and in the ability to use technology to solve real-world problems.

2. Who Decides What Constitutes Innovation?

Innovation frequently generates tension because it is evaluated in vastly different ways by different stakeholders:

  • The Management Perspective: According to Hariyanto (2025), administrators view innovation through the lens of strategic agility. For them, innovating means modernizing infrastructure and optimizing institutional performance to respond swiftly to the challenges of the educational market.

  • The Faculty Perspective: The scenario is entirely different. For Kobayashi (2020), the teacher is an irreplaceable agent of change. Innovation cannot be imposed "top-down"; it is only genuine if it stems from the educator's reflection on their own practice, thereby granting them autonomy.

  • The Student Perspective: As Pimentel (2023) demonstrates, students perceive innovation when the dynamic removes them from the role of passive receivers and positions them as active and participatory subjects of learning.

The great challenge for our institutions is to successfully align management's need for efficiency and agility with the pedagogical participation that we, as educators, demand.

3. The Ecosystem for Success: Genuine Conditions for Innovation

We cannot demand "innovative classes" without guaranteeing the fertile soil for them to flourish. The literature shows us that success depends on an ecosystem supported by three essential pillars:

  • Cultural Conditions: Abandoning the culture of passive teaching. Hariyanto (2025) emphasizes that institutions must adopt an agile culture that encourages experimentation, creativity, and, above all, tolerates failure when attempting new approaches.

  • Pedagogical Conditions: Kobayashi (2020) reminds us that our continuing education should focus on critical reflection upon teaching, rather than merely on tutorials for artifacts. Excessively formatted curricula and the pressure for standardized assessments remain our greatest barriers, according to Petter et al. (2025).

  • Institutional Conditions: Finally, materiality. The mapping by Petter et al. (2025) is clear: management support is vital, but lack of funding and precarious conditions are high walls. And, as Kobayashi (2020) argues, we need time. Paid time to reflect, plan collectively, and design strategies that truly make a difference.

Digital technology is a fantastic engine, but the steering wheel remains our pedagogical intentionality.

And what about you? In your practices and institutions, have you felt that technology is being used as an end in itself or as a true bridge to innovation? Share your experiences in the comments!

To synthesize the information, here is the animated infographic you requested:




References:

HARIYANTO; RAHAYU, Agus; SENEN, Samsul Hadi; WIBOWO, Lili Adi. Innovation Agility and Its Role in Advancing Educational Outcomes: Systematic Review of Future Research Directions. IJORER: International Journal of Recent Educational Research, v. 6, n. 6, 2025. DOI: https://doi.org/10.46245/ijorer.v6i6.1166. Disponível em: https://journal.ia-education.com/index.php/ijorer/article/download/1166/932. Acesso em: 13 mar. 2026.

KOBAYASHI, Maria do Carmo Monteiro. Quando inovar é a única saída: os processos de transformação na vida e na educação. In: CELESTE FILHO, Macioniro; KOBAYASHI, Maria do Carmo Monteiro (Org.). Inovação educacional e formação de professores: a experiência contemporânea dos municípios de Duartina e Ubirajara. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2020. Disponível em: https://www.fc.unesp.br/Home/ensino/pos-graduacao/programas/docenciaparaaeducacaobasica/ebook_inovacao-educacional.pdf. Acesso em: 13 mar. 2026.

PIMENTEL, F. S. C. P. Jogos Digitais, inovação e ensino na Saúde. In.: PIMENTEL, F. S. C.; SILVA, A. P. (Orgs.). Tecnologias digitais e inovação em educação: abordagens, reflexões e experiências. São Carlos: Pedro & João Editores, 2023. p. 23-42. Disponível em: https://arquivos.pedroejoaoeditores.com.br/wp-content/uploads/2022/12/03170224/EBOOK_Tecnologias-digitais-e-inovacao-em-educacao.pdf Acesso em: 9 mar. 2026.

PETTER, Ana Amélia; SOUZA, Douglas Grando de; ESPINOSA, Tobias; ARAUJO, Ives Solano. Innovation in education: a systematic analysis of literature reviews. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 30, e300017, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/kv8VqTPwzb39t7mCJqPxgpL/?format=pdf&lang=en. Acesso em: 13 mar. 2026.







Diário de uma doutoranda aventureira - A Ilusão Tecnológica: O que é realmente Inovar na Educação?

 

Olá, aventureiros!

Como investigadora e docente imersa na cultura digital e nas tecnologias incorporadas a educação, debato-me frequentemente com uma pressão constante no nosso meio: a urgência de sermos "inovadores". No entanto, quando levamos para a sala de aula novos artefatos, sejam elas ambientes virtuais, aplicações analógicas ou jogos digitais, surge sempre uma questão inevitável: até que ponto a simples introdução de tecnologia é, de facto, uma inovação educativa?

Para refletirmos sobre isto, trazemos algumas das perspectivas mais relevantes da literatura atual sobre a temática. 

1. A Armadilha do Uso Instrumental: Tecnologia vs. Mudança Pedagógica

É muito comum cairmos no que Petter et al. (2025) chama de "viés positivo a priori": a crença cega de que tudo o que é tecnologicamente novo é pedagogicamente bom. Trocar o quadro negro por um ecrã interativo não é inovar; é apenas uma "alteração cosmética".

Como bem alerta Pimentel (2023) ao investigar a incorporação de jogos digitais, a tecnologia por si só não faz o trabalho. Se um jogo for introduzido apenas para a repetição mecânica de conteúdos, o modelo transmissivo continua lá. A verdadeira inovação exige o que Campos e Blikstein (2019) classificam como "inovações radicais", que quebram o modelo tradicional. Para Kobayashi (2020), isso significa uma mudança profunda de postura: a inovação precede a máquina; ela está na nova atitude do professor e do aluno frente ao conhecimento e na capacidade de usar a tecnologia para resolver problemas reais.

2. Quem decide o que é Inovação?

A inovação gera frequentemente tensões porque é avaliada de formas muito diferentes por diferentes autores:

  • A visão da Gestão: Segundo Hariyanto (2025), os gestores leem a inovação por meio da lente da agilidade estratégica. Para eles, inovar significa modernizar infraestruturas e otimizar a "performance" institucional para responder rapidamente aos desafios do mercado educacional.

  • A visão dos Docentes: O cenário é outro. Para Kobayashi (2020), o professor é um insubstituível agente de mudança. A inovação não pode ser imposta "de cima para baixo"; ela só é real se nascer da reflexão do docente sobre a sua própria prática, conferindo-lhe autonomia.

  • A visão dos Estudantes: Como demonstra Pimentel (2023), os alunos percepcionam a inovação quando a dinâmica os tira do papel de receptores passivos e os coloca como sujeitos ativos  e participativos da aprendizagem.

O grande desafio das nossas instituições é conseguir alinhar a necessidade de eficiência e agilidade da gestão com o participativo pedagógico que nós, docentes, reivindicamos.

3. O Ecossistema para o Sucesso: Condições Reais para Inovar

Não podemos exigir "aulas inovadoras" sem garantir o solo fértil para que elas floresçam. A literatura mostra-nos que o sucesso depende de um ecossistema sustentado por três pilares essenciais:

  • Condições Culturais: Abandonar a cultura de ensino passivo. Hariyanto (2025), sublinha que as instituições precisam adotar uma cultura ágil que encoraje a experimentação, a criatividade e, acima de tudo, que tolere o erro ao tentarmos novas abordagens.

  • Condições Pedagógicas:  Kobayashi (2020) lembra-nos que a nossa formação contínua deve focar na reflexão crítica sobre a docência, e não apenas em tutoriais de artefatos. Currículos excessivamente formatados e pressões por avaliações padronizadas continuam a ser as nossas maiores barreiras, segundo Petter et al. (2025).

  • Condições Institucionais: Por fim, a materialidade. O mapeamento de Petter et al. (2025) é claro: o apoio da gestão é vital, mas a falta de financiamento e a precarização são muros altos. E, como Kobayashi (2020) defende, precisamos de tempo. Tempo remunerado para refletir, planear coletivamente e desenhar estratégias que realmente façam a diferença.

A tecnologia digital é um motor fantástico, mas o volante continua a ser a nossa intencionalidade pedagógica.

E por aí, nas vossas práticas e instituições, têm sentido que a tecnologia tem sido usada como um fim em si mesma ou como uma verdadeira ponte para a inovação? Partilhem as vossas experiências nos comentários!


Para sintetizar as informações segue um infográfico animado: 



Referências:  

HARIYANTO; RAHAYU, Agus; SENEN, Samsul Hadi; WIBOWO, Lili Adi. Innovation Agility and Its Role in Advancing Educational Outcomes: Systematic Review of Future Research Directions. IJORER: International Journal of Recent Educational Research, v. 6, n. 6, 2025. DOI: https://doi.org/10.46245/ijorer.v6i6.1166. Disponível em: https://journal.ia-education.com/index.php/ijorer/article/download/1166/932. Acesso em: 13 mar. 2026.

KOBAYASHI, Maria do Carmo Monteiro. Quando inovar é a única saída: os processos de transformação na vida e na educação. In: CELESTE FILHO, Macioniro; KOBAYASHI, Maria do Carmo Monteiro (Org.). Inovação educacional e formação de professores: a experiência contemporânea dos municípios de Duartina e Ubirajara. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2020. Disponível em: https://www.fc.unesp.br/Home/ensino/pos-graduacao/programas/docenciaparaaeducacaobasica/ebook_inovacao-educacional.pdf. Acesso em: 13 mar. 2026.

PIMENTEL, F. S. C. P. Jogos Digitais, inovação e ensino na Saúde. In.: PIMENTEL, F. S. C.; SILVA, A. P. (Orgs.). Tecnologias digitais e inovação em educação: abordagens, reflexões e experiências. São Carlos: Pedro & João Editores, 2023. p. 23-42. Disponível em: https://arquivos.pedroejoaoeditores.com.br/wp-content/uploads/2022/12/03170224/EBOOK_Tecnologias-digitais-e-inovacao-em-educacao.pdf Acesso em: 9 mar. 2026.

PETTER, Ana Amélia; SOUZA, Douglas Grando de; ESPINOSA, Tobias; ARAUJO, Ives Solano. Innovation in education: a systematic analysis of literature reviews. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 30, e300017, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/kv8VqTPwzb39t7mCJqPxgpL/?format=pdf&lang=en. Acesso em: 13 mar. 2026.








terça-feira, 10 de março de 2026

Diário de uma doutoranda aventureira: Desconstruindo a Tecnologia: Uma Reflexão sobre Cultura, TICs TDICs e Inovação educacional

 Hoje quero compartilhar com vocês um pouco do que vivenciamos na segunda aula da disciplina de Tecnologias Digitais no Ensino. Foi um daqueles encontros que nos tiram da zona de conforto e nos fazem repensar conceitos que, no dia a dia da nossa prática como educadores e pesquisadores, muitas vezes usamos no piloto automático.

A dinâmica da aula foi conduzida através da Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), uma metodologia que logo de cara nos colocou como participantes ativos e colaborativos na construção do conhecimento. O desafio inicial parecia simples, mas era profundo: afinal, o que é tecnologia?

O desenvolvimento da aula nos forçou a ampliar nossas visões. Ao debater com colegas de diferentes áreas de formação, ficou claro como cada campo do saber enxerga o fenômeno tecnológico por uma lente única. Essa troca multidisciplinar nos permitiu chegar a uma compreensão muito mais rica e ancorada na história: a tecnologia não se resume apenas a cabos, telas ou circuitos. Ela é, antes de tudo, uma técnica cultural e histórica. Desde a invenção da roda, passando pela escrita, até chegarmos aos algoritmos de hoje, a tecnologia é a materialização da cultura humana em resposta aos desafios de cada época.

A partir dessa base histórica, mergulhamos nas diferenciações conceituais fundamentais para a nossa pesquisa educacional:

  • Tecnologia: O conceito amplo, englobando as técnicas, artefatos s e conhecimentos criados pela humanidade para resolver problemas e transformar o ambiente.

  • TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação): O conjunto de tecnologias com foco no processamento e transmissão de informações, englobando mídias analógicas e eletrônicas, como o rádio, a televisão e o telefone.

  • TDIC (Tecnologia Digital da Informação e Comunicação): O estágio que engloba o digital, em que a informação é codificada em linguagem binária. São os computadores, a internet, os smartphones e os ambientes virtuais de aprendizagem, que transformam radicalmente a forma como interagimos, aprendemos e produzimos conhecimento.

Compreender as nuances estruturais e históricas entre essas três esferas foi o ponto alto da discussão. Entender que nem toda tecnologia é digital e que nem toda tecnologia é da informação e comunicação muda a forma como desenhamos nossas intervenções pedagógicas e avaliamos os impactos desses artefatos na sociedade.

Esse debate foi apenas o ponto de partida. Desconstruir esses conceitos foi o degrau necessário para começarmos a pensar no próximo grande desafio das nossas pesquisas e da educação: a inovação educacional. Como podemos transcender o simples "uso" dos artefatos e passar a inovar de forma crítica e intencional nos processos de ensino e aprendizagem?

As inquietações foram plantadas. E vocês, como enxergam a fronteira entre o que é apenas um artefato tecnológico e o que realmente representa uma inovação digital na educação?





sexta-feira, 6 de março de 2026

Diário de uma aventureira: A Incorporação das Competências Digitais na Educação Infantil

Olá, aventureiros!

Quando falamos de tecnologia e crianças pequenas, é comum sentirmos um misto de fascínio e receio. Afinal, como equilibrar o encanto do mundo digital com a necessidade fundamental do brincar, do toque e da interação olho no olho?

Recentemente, vivenciei uma experiência transformadora: uma formação dedicada a professores e coordenadores da Educação Infantil, focada exatamente na incorporação das competências digitais no nosso dia a dia escolar. Quero compartilhar com vocês, aqui no blog, os principais aprendizados e reflexões dessa jornada.

O Fim do "Bicho-Papão" das Telas

O primeiro grande passo da nossa formação foi a desmistificação. Muitas vezes, nós educadores enxergamos a tecnologia apenas como as "telas" que passivizam as crianças. A formação nos convidou a mudar a lente e enxergar o ambiente digital como um recurso de autoria e exploração.

Descobrimos que incorporar competências digitais não significa colocar um tablet na mão de cada criança de três anos e deixá-las isoladas. Significa incorporar a tecnologia como uma ponte para o aprendizado do mundo real, seja gravando os sons da natureza no pátio, usando uma câmera para observar insetos de perto, ou criando uma história coletiva em áudio.

A Prática em Movimento: Vivência com Rotação por Estações

Para que a intencionalidade pedagógica não ficasse apenas no discurso, estruturamos o momento de mão na massa utilizando a metodologia de rotação por estações. Nosso objetivo era experimentar, na prática, a fluidez entre o analógico e o tecnológico.

Organizamos o espaço formativo em três estações distintas, onde os educadores transitavam de forma contínua entre atividades físicas e propostas digitais. Essa dinâmica foi fundamental para evidenciar que o digital não concorre com o material físico (como a massinha, a tinta ou os elementos da natureza). Pelo contrário, vivenciamos como essas dimensões se complementam perfeitamente na hora de ampliar as investigações e enriquecer a documentação pedagógica.

Para os Professores: Foi o momento de colocar a "mão na massa", testar recursos pedagógicos e artefatos e perder o medo de errar na frente (e junto com) as crianças.

Para os Coordenadores: Foi um espaço para entender como apoiar a equipe, garantir infraestrutura (mesmo que básica) e alinhar o uso da tecnologia ao planejamento escolar. 

Intencionalidade Pedagógica é a Chave

Se houve uma premissa que guiou nossos encontros, foi a intencionalidade. Para estruturar essa visão, discutimos como as competências digitais do próprio educador são o ponto de partida. Não podemos guiar as crianças em uma cultura digital segura e criativa se nós mesmos não desenvolvermos essas habilidades, refletindo sobre nossas próprias práticas. O letramento digital do professor reflete diretamente na qualidade das propostas oferecidas aos pequenos.

Olhando para o Futuro

Sair dessa formação me deu a certeza de que a Educação Infantil não precisa e nem deve ficar à margem da cultura digital. Pelo contrário: com embasamento teórico, intencionalidade e planejamento em equipe, podemos incorporar as tecnologias para tornar as descobertas das nossas crianças ainda mais ricas. O digital não substitui o abraço, a tinta no dedo ou a areia no pé, mas atua como mais uma linguagem poderosa para expressar e registrar todas essas vivências.












Diário de uma doutoranda aventureira: mapa conceitual sobre formação de professores para a Educação Híbrida

 Olá, aventureiros!


Hoje, apresento um mapa conceitual, atividade da disciplina do doutorado (Tecnologias Digitais no Ensino) relacionando alguns referenciais teóricos com a temática da minha pesquisa: formação de professores e educação híbrida. 


segunda-feira, 2 de março de 2026

Diário de uma Doutoranda aventureira: O que significa ensinar na Sociedade em Rede?

Olá, aventureiros!

 ​A tarde de hoje marcou o início de mais uma disciplina no doutorado e a cabeça ainda está fervilhando com as discussões. Sentar na cadeira de pesquisadora para debater tecnologias digitais educacionais nos faz ir muito além da superfície das telas e dos aplicativos. Hoje, o mergulho foi nas raízes de como nos conectamos e aprendemos.

​O grande debate do dia girou em torno de uma reflexão essencial: o que aprendemos e o que é, de fato, ensinar? Como é ensinar na sociedade em rede? Ficou claro que não se trata apenas de colocar computadores ou smartphones na sala de aula ou usar a internet como um grande repositório de informações. Ensinar nesse contexto é compreender que estamos todos imersos em conexões constantes, onde o conhecimento se constrói de forma descentralizada, colaborativa e em um fluxo contínuo. É preparar para um mundo onde as redes de relações importam tanto quanto o próprio conteúdo.

​E isso nos levou a outro ponto fascinante da aula: enxergar a tecnologia como um artefato cultural e histórico. Muitas vezes, no senso comum, a tecnologia é vista como algo neutro, apenas uma "ferramenta" ou um equipamento frio. Mas a realidade é que ela é fruto da nossa cultura humana. Ela carrega as nossas intencionalidades, os nossos valores e, ao mesmo tempo, atua moldando ativamente a forma como vivemos, nos comunicamos e produzimos saber.

​Entender a tecnologia dessa forma crítica muda tudo na pesquisa e na nossa prática docente. Sair de uma aula como essa desperta uma vontade imensa de investigar cada detalhe da cultura digital e de repensar a educação a partir dessas novas lentes.

Encerro esta segunda-feira com a cabeça fervendo de ideias, transitando entre o ensinar e o aprender. A jornada no doutorado é intensa e, por vezes, solitária, mas tardes de troca como a de hoje renovam o fôlego e me lembram exatamente por que escolhi trilhar esse caminho acadêmico.



Diário de uma doutoranda - Aprender é adaptar ou transformar o Mundo?

 Fala, aventureiros da pesquisa! Hoje o dia começou daquele jeito por aqui: café forte na xícara, o Apolo já exigindo sua caminhada matinal,...