domingo, 26 de abril de 2026

O Silêncio da Manhã e o Doce Peso do Saber

O silêncio de uma manhã de domingo tem uma textura particular. Ele começa na cozinha, com o som do leite sendo espumado e o fio de mel caindo lentamente no fundo da xícara. O chão frio sob os pés descalços enquanto caminho até o escritório é o lembrete físico de que o dia começou. Mais um dia de leituras, de escrita, de tentar dar conta da imensidão que é uma pesquisa de doutorado.

​Sentada na cadeira, com a tela do notebook iluminando o rosto e a xícara quente nas mãos, é muito fácil cair na armadilha da exaustão. Nós, que vivemos a rotina acadêmica e docente, frequentemente nos pegamos reclamando. Reclamamos da correria, da pilha interminável de artigos, das demandas da semana, da pressão que é construir uma tese e ainda equilibrar os pratos da vida. A sensação é de que estamos sempre devendo tempo a nós mesmas.

​Mas hoje, enquanto o vapor do café subia e o Apolo provavelmente aproveitava o silêncio da casa para descansar, um pensamento me atravessou com uma clareza imensa: eu estava reclamando do meu maior privilégio.

​Ter que "dar conta de tanta coisa" no campo do estudo é, na verdade, uma dádiva que escapa a tantas pessoas. Olhei para a minha mesa. O computador à minha frente, a conexão com o mundo, os livros empilhados, os artefatos tecnológicos que me permitem acessar qualquer banco de teses do planeta em segundos. Eu tenho um espaço seguro e confortável. Eu tenho os meios. Eu tenho o tempo em uma manhã de domingo para simplesmente sentar e pensar.

​Quantas pessoas não dariam tudo para ter esse mesmo cansaço? Quantos não têm o básico, quanto mais um ambiente propício para o letramento digital, para a expansão da mente e para a construção do conhecimento?

​Estudar exige muito de nós, sim. Mas é um espaço de poder e de transformação. Quando focamos apenas no cansaço e no volume de trabalho, nós nos esquecemos da beleza que é ter a mente provocada, de poder questionar o mundo e de construir algo novo por meio da educação. Ter um domingo livre para escolher sentar e estudar não é um castigo da vida adulta; é uma oportunidade rara.

​O peso da tese e dos estudos de repente se tornou mais leve. O café pareceu até mais doce. Que a gente nunca perca a capacidade de reconhecer o lugar que ocupamos e as ferramentas... ou melhor, os artefatos que temos à nossa disposição para transformar a nossa realidade e a dos outros.

​A palavra final para essa manhã de domingo, e para toda essa jornada, não poderia ser outra.

Gratidão.





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